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Home Justiça

Ministro da Justiça pede que PF investigue filme que simula ataque a presidente

TIA CÂNDIA Por TIA CÂNDIA
17 de julho de 2022 às 12:04
Ministro da Justiça pede que PF investigue filme que simula ataque a presidente

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O ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, determinou que a Polícia Federal investigue uma produção cinematográfica em que um personagem semelhante ao presidente Jair Bolsonaro (PL) participa de uma motociata e sofre um ataque.

Em vídeos e fotos que circulam em contas de bolsonaristas nas redes sociais, neste sábado (16), o personagem com a faixa presidencial aparece caído no chão e sujo de sangue, aparentemente após ter sido vítima de uma ação violenta durante a motociata.

As publicações, feitas também por deputados apoiadores de Bolsonaro e pelos filhos do presidente, deixam claro se tratar de uma filmagem —e é possível ver um set de gravação nas imagens.

“As imagens são chocantes e merecem ser apuradas com cuidado”, disse o ministro.

O filme foi atribuído por bolsonaristas, como Carla Zambelli (PL) e Mário Frias (PL), à Rede Globo, mas, em nota divulgada pelo G1, a emissora negou que se trate de produção sua e indicou que as filmagens seriam do filme “A Fúria”, do cineasta Ruy Guerra, 90. A obra encerra a trilogia de “Os Fuzis” (1964) e “A Queda” (1977).

A produção do filme divulgou nota, na noite de sábado, afirmando que a cena foi divulgada sem autorização e tirada de contexto.

“Circula na internet uma imagem captada sem autorização de uma filmagem à qual atribui-se suposto, e infundado, discurso de ódio. Ruy Guerra filmou um longa-metragem de ficção que será lançado no final de 2023, portanto não há qualquer relação com o processo eleitoral e, muito menos, forjar fake news simulando um fato real”, diz a nota.

“O fato ilegal neste caso é a divulgação de uma cena retirada do contexto da história que será contada. Esclarecidos estes fatos, o diretor Ruy Guerra avisa que só fala de seu filme quando estiver pronto, como ele sempre faz”, conclui a produção.

Questionado pela reportagem antes da divulgação da nota da produção, Guerra afirmou que não falaria sobre o filme até o seu lançamento e não especificou quando isso ocorrerá. Ele confirmou que está gravando o filme “A Fúria”, mas disse não saber se as cenas compartilhadas nas redes pertencem a sua obra.

Mesmo após a descrição das cenas pela reportagem, Guerra se recusou a falar sobre o assunto. “Não sei dizer porque não vi, não vi o material”, disse.

Os apoiadores de Bolsonaro criticaram as cenas de ficção, afirmando que se trata de discurso de ódio da esquerda e de incentivo à violência contra o presidente.

“Essa ideologia esquerdista mata e quer matar ainda mais! Tentaram matar Bolsonaro uma vez e não conseguiram, agora, até ensinam como fazer”, publicou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A acusação de que a esquerda promove discurso de ódio a partir das cenas ocorre na semana em que a incitação à violência pelo presidente Bolsonaro esteve em discussão, após o assassinato do petista Marcelo de Arruda pelo bolsonarista Jorge Guaranho em Foz do Iguaçu (PR).

Na sexta-feira (15), partidos de oposição se reuniram com o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), para entregar representação em que acusam Bolsonaro de disseminar discurso de ódio e incitar a violência. Moraes deu 48 horas para o presidente se manifestar.

As cenas de ficção de um suposto ataque ao presidente foram repudiadas pelo vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) e pelo ex-juiz Sergio Moro (União Brasil).

“Repudio veemente qualquer ato que possa estimular a violência a quem quer que seja. Está circulando nas redes um ‘filme’ que demonstra o suposto assassinato do nosso presidente. Isso não é arte! Isso é um ato imoral à nação e ao governo federal”, publicou Mourão.

“Inadmissível tratar de forma jocosa ou figurativa a morte de uma pessoa, ainda mais de um presidente da República. Esse tipo de comportamento acirra os ânimos e não contribui em nada para o debate político”, disse Moro.

Em nota, a Globo diz não ter “nenhuma série, novela ou programa com esse conteúdo”. “Segundo foi informada, a gravação seria de um filme do cineasta Ruy Guerra chamado ‘A Fúria’”, diz o texto.

“O Canal Brasil tem uma participação de apenas 3,61% nos direitos patrimoniais desse filme, mas jamais foi informado dessas cenas e, como é praxe em casos de cineastas consagrados, não supervisiona a produção. Embora tenha participação acionária no Canal Brasil, a Globo não interfere na gestão e nos conteúdos do canal”, conclui a nota.

Segundo o site da Agência Nacional do Cinema (Ancine), o filme “A Fúria” foi selecionado em edital para receber financiamento do Fundo Setorial do Audiovisual, fundo público de fomento. A verba destinada é de R$ 2 milhões.

A sinopse da obra diz que o protagonista da trilogia, Mário, preso durante a ditadura militar, “sai da cadeia já velho, para ajustar contas com sua história e com os dois homens que, a seu ver, traíram a ele e ao país: Salatiel, seu sogro, e hoje rico empreiteiro, e Ulisses, seu antigo companheiro de militância, hoje um poderoso político”.

O elenco conta com Lima Duarte, Paulo César Pereio, Daniel Filho, Maria Gladys, entre outros.

Nascido em Moçambique e parte do grupo do cinema novo, Guerra também é conhecido pelo filme “Os Cafajestes” (1962) e venceu o prêmio Urso de Prata do Festival de Berlim com os filmes “Os Fuzis” e “A Queda”.

Seu longa mais recente, “Aos Pedaços” (2020), recebeu três prêmios, inclusive o de melhor direção, no Festival de Gramado.

Por Carolina Linhares

Tags: ataqueatentadoBolsonarofilmeinvestigueMinistro da JustiçaPFpresidente
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