A trajetória que levou o Banco Master a uma expansão acelerada teve entre seus pontos de partida um negócio originado na Bahia. Reportagem publicada pelo Poder360 aponta que o Credcesta, produto financeiro ligado à estatal Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), passou para a iniciativa privada em 2018 e posteriormente foi incorporado à estrutura do então Banco Máxima, que viria a se chamar Banco Master. A operação aproximou o empresário baiano Augusto Lima de Daniel Vorcaro e criou uma frente de crédito consignado que ganharia escala nacional.
Segundo a apuração, decisões tomadas durante os governos de Jaques Wagner e Rui Costa, ambos do PT, tiveram papel relevante na trajetória do Credcesta. Wagner sancionou, em 2014, a lei que autorizou a alienação da Ebal. Após tentativas de venda sem interessados, a estatal acabou privatizada em abril de 2018, durante a gestão Rui Costa, por R$ 15 milhões. Apenas 16 dias depois do leilão, dois decretos assinados pelo então governador alteraram as condições de funcionamento do Credcesta: um autorizou a ampliação das operações de crédito, inclusive com saque em dinheiro, e outro modificou regras relacionadas à margem de consignação dos servidores estaduais. De acordo com o Poder360, Augusto Lima assumiu o Credcesta e, ainda em 2018, formalizou a intenção de se tornar sócio de Vorcaro.
O negócio ganhou peso dentro do Banco Máxima. Dados do Banco Central apresentados pelo Poder360 mostram que, em 2018, a carteira de pessoa física da instituição era de cerca de R$ 400 milhões e praticamente não possuía consignados. Em 2021, quando o Máxima passou a usar o nome Master, a carteira havia chegado a aproximadamente R$ 1,1 bilhão, sendo R$ 800 milhões em consignados. Em 2023, os valores alcançaram R$ 3,4 bilhões e R$ 2,6 bilhões, respectivamente. Naquele momento, 75% da carteira de pessoa física estava concentrada nessa modalidade.
A reportagem chama atenção também para o custo das operações. Em janeiro de 2020, segundo os dados apresentados, o Máxima/Credcesta cobrava 4,92% ao mês — 77,90% ao ano — no crédito consignado ao funcionalismo, taxa superior à de instituições como Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Santander e Bradesco no levantamento utilizado pelo Poder360. A publicação afirma ainda que ações judiciais questionaram a forma como determinadas operações eram apresentadas e cobradas.
Outro ato destacado ocorreu em janeiro de 2022, quando Rui Costa assinou decreto que, segundo a reportagem, restringiu a transferência de determinadas dívidas do Credcesta para outras instituições e consignatárias. Nos anos seguintes, o negócio avançou para além da Bahia. O balanço de 2024 citado pelo Poder360 registrava presença do cartão benefício em 24 Estados e 176 municípios, contra 20 Estados e 130 municípios no ano anterior.
A escala do Master cresceu de forma ainda mais intensa a partir de 2023. Os dados reproduzidos pela publicação indicam que o número de clientes com operações de crédito do Máxima/Master passou de aproximadamente 30 mil em 2018 para 120 mil em 2021 e atingiu 5,79 milhões em 2024. No mesmo período, a quantidade de operações ativas saltou de cerca de 100 mil para 17,93 milhões. Os números se referem à carteira dos bancos Máxima e Master e, segundo a própria fonte, não incluem subsidiárias posteriormente adquiridas pelo grupo.
A apuração do Poder360 relaciona essa trajetória às investigações que posteriormente alcançaram personagens envolvidos no caso Master. Daniel Vorcaro e Augusto Lima foram presos em operação da Polícia Federal em novembro de 2025, conforme relata a publicação. O material também menciona investigação sobre possível tráfico de influência atribuída ao senador Jaques Wagner, acusação negada por ele. Por se tratar de investigação, as suspeitas não equivalem a comprovação de responsabilidade criminal.
A sequência revelada pela reportagem coloca, portanto, o Credcesta no centro da gênese de uma das principais linhas de negócios que alimentaram o crescimento do Master: um produto criado no ambiente estatal baiano, privatizado durante governos do PT, beneficiado por mudanças regulatórias estaduais e posteriormente levado à estrutura empresarial de Vorcaro. Anos depois, a carteira de consignados que começou na Bahia havia se espalhado pelo país, enquanto o Master experimentava uma expansão meteórica antes de sua liquidação pelo Banco Central, em novembro de 2025.














