A violência armada faz parte da rotina de parte das escolas e estudantes de Salvador, segundo levantamento realizado pelo Instituto Fogo Cruzado (IFC) em parceria com pesquisadores. Entre 2023 e 2025, foram registrados 3.748 disparos de arma de fogo no entorno das unidades de ensino analisadas na capital baiana, uma média de 3,4 ocorrências por dia.
Do total registrado, 2.206 disparos, o equivalente a 59%, aconteceram em dias letivos, período em que estudantes, professores e demais integrantes da comunidade escolar estavam em circulação.
O estudo analisou cerca de 600 escolas, que juntas somaram aproximadamente 275 mil matrículas por ano. Para avaliar o nível de exposição, os pesquisadores criaram o Índice de Risco de Exposição Escolar (IREE), considerando a intensidade, a severidade e a persistência dos episódios registrados em um raio de até um quilômetro das unidades.
Escolas enfrentam episódios recorrentes
De acordo com o levantamento, 120 escolas estiveram em áreas classificadas como críticas em pelo menos um dos três anos analisados. Seis unidades permaneceram nessa condição durante toda a série histórica.
A pesquisa também identificou situações de exposição recorrente. Em 2025, 23 escolas registraram mais de 40 dias afetados por ocorrências armadas, com casos que chegaram a 55 dias.
Nos anos anteriores, os números foram ainda maiores. Em 2024, 71 escolas ultrapassaram a marca de 40 dias, chegando a 80 dias afetados. Já em 2023, foram 81 unidades acima desse patamar, com registros de até 74 dias.
Disparos ocorrem durante horários de circulação
O levantamento aponta ainda que parte significativa dos disparos ocorre nos períodos da manhã e da tarde, justamente quando há maior circulação de estudantes e profissionais nas proximidades das escolas.
Entre os 2.206 disparos registrados em dias letivos, 37,4% estiveram relacionados a intervenções policiais, enquanto 32% decorreram de homicídios ou tentativas de homicídio.
Somadas, as duas circunstâncias correspondem a 69,4% das ocorrências registradas durante o período de aulas.
Oito bairros concentram quase 20% dos tiroteios
A exposição à violência armada também não está distribuída de maneira uniforme pela capital baiana. Dos 163 bairros de Salvador, oito concentraram quase 20% dos tiroteios registrados entre 2023 e 2025.
Entre eles estão Beiru/Tancredo Neves, Pernambués, Fazenda Grande do Retiro, Lobato, Valéria, Federação, IAPI e Castelo Branco.
O estudo também identificou concentração de escolas classificadas em áreas críticas. Das 120 unidades que estiveram nessa condição em algum momento da série histórica, 30 estavam na região da Prefeitura-Bairro Liberdade/São Caetano e 17 na Cidade Baixa.
Juntas, as duas regiões concentraram aproximadamente 39% das escolas classificadas como críticas, além de cerca de 17,9 mil matrículas em 2025.
Os dados, segundo a análise, indicam que, para parte dos estudantes e profissionais da educação, a violência armada não é apenas um episódio pontual, mas uma situação que pode se repetir ao longo do ano e interferir na circulação da comunidade escolar e na continuidade das atividades educacionais.















