Quando não tira vidas, a violência armada ceifa sonhos. As trocas de tiros entre o Comando Vermelho (CV) e o Bonde do Maluco (BDM) acabaram de vez com as aulas noturnas do Colégio Estadual Raul Sá, em Mussurunga I. Os relatos dão conta de que pouco mais de 50 alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), em sua maioria pais e mães de família, não foram mais às aulas, com medo de serem atacados pelo BDM, facção que controla o tráfico em Mussurunga – boa parte deles mora em Vila Verde, área de atuação do CV. Além disso, neste fogo cruzado, estão também os docentes, que, apavorados, abandonaram a unidade de ensino.
“Tudo começou no ano retrasado, quando a guerra entre eles (traficantes) passou a ser quase todo o dia e também perto do colégio. Aí, os professores, que chagavam ou saiam de carro corriam risco de bala perdida. Mesmo sabendo disso, tentei uma vaga lá, mas não consegui. O pessoal da secretaria disse que eu teria que ir para outro colégio, pois não haveria mais as aulas à noite”, declarou uma diarista de 54 anos, moradora de Vila Verde, que tentou no início do ano passado o EJA no Colégio Estadual Raul Sá.
Amedrontada, a diarista passou 2023 sem estudar e permanece assim até hoje. “Mandaram tentar uma vaga em São Cristóvão, mas a situação de lá é bem pior. O colégio fica numa ‘bocada’ do BDM, diferente do Raul Sá. Por causa disso, já perdi um emprego este ano. Tenho experiência em serviços gerais, mas quando fui à Prefeitura-Bairro não tinha escolaridade suficiente e não fui chamada para a seleção”, disse ela.
A reportagem esteve no Colégio Estadual Raul Sá, localizado na Rua Doutor Arthur Couto, onde à noite estudavam pouco mais de 50 alunos entre 18 e 60 anos, sendo que a grande parte era formada por trabalhadores que “queriam estudar para melhorar de vida”. “Eram pedreiros, diaristas, seguranças, mas, como se não bastassem os problemas do dia a dia, como o cansaço, filhos doentes, eles ainda enfrentavam a questão da insegurança, o medo de não conseguir voltar para suas casas”, relatou um docente, confirmando o fim das aulas noturnas no ano passado. “Os professores foram redistribuídos para outras unidades de ensino, algumas daqui mesmo, do bairro”, complementou. Atualmente, a unidade tem 767 estudantes, distribuídos nos turnos matutino e vespertino.















