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Home Polícia

Tráfico ordena que enterros sejam só pelas manhãs em cemitério de Periperi

TIA CÂNDIA Por TIA CÂNDIA
30 de maio de 2022 às 09:37
Tráfico ordena que enterros sejam só pelas manhãs em cemitério de Periperi

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As pichações não são os únicos indicativos de que o tráfico de drogas se faz presente até onde o descanso deveria ser eterno. Não mesmo. Uma ordem de uma facção determina que os enterros sejam realizados somente pelas manhãs no Cemitério Municipal de Periperi, Subúrbio Ferroviário de Salvador. Isso porque, no restante do dia e à noite, covas são usadas como ponto de venda de drogas e também para depósito de armas. 

O cemitério fica na Rua das Pedrinhas. Nas paredes internas do muro e na administração estão as siglas da organização criminosa que manda na área: BDM (Bonde do Maluco), a mais numerosa e violenta da Bahia.

“São eles que ficam usando e vendendo drogas. A ordem que deram é para enterrar até o meio-dia, e assim fizemos para sepultar um parente que faleceu de causa natural. Ninguém é maluco de não acatar, porque já sabe o que acontece com quem desobedece. Então, a partir da tarde, o cemitério é todo deles. Das 8h às 12h30, 13h, fica gente deles nos muros, só observando a movimentação de gente e, a partir da tarde, começam a ocupar a área do cemitério. Até armas escondidas já foram encontrada lá”, contou o familiar do morto, que era um homem 35 anos vítima de choque cardiogênico e enterrado no local em abril. Por uma questão de segurança, decidimos preservar os dados do parente.

A reportagem procurou a Polícia Civil. Por meio de nota, a PC informou que “na 5ª DT/Periperi, unidade que cobre a área citada, não consta nenhuma ocorrência com essas informações”. A reportagem também entrou em contato com a Polícia Militar. “De acordo com a 18ª CIPM, a informação é improcedente e a unidade não recebeu nenhuma demanda neste sentido”, diz nota da PM.

Já a Secretaria de Ordem Pública (Semop), responsável pela administração dos cemitérios de Salvador, disse que conta com a Guarda Civil Municipal (GCM) para evitar que funcionários sejam assaltados durante a limpeza do cemitério.

Coveiros

Apesar das negativas da Civil e PM, a fonte citada no início da matéria disse que não procurou a polícia por medo de represália da facção. Durante conversa com a reportagem, ela relatou que o parente morreu em um domingo, após passar mal na Avenida Suburbana. A funerária já havia providenciado todos os trâmites para o enterro acontecer na tarde do dia seguinte. Então, na manhã de segunda, a família já tinha feito todo o procedimento para a liberação do corpo no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR). Ainda na manhã de segunda, quando o parente esteve no cemitério de Periperi, para ver os últimos detalhes para sepultamento, a surpresa: 

“Os coveiros disseram que não estavam enterrando à tarde porque os traficantes não deixam. Sem acreditar, perguntei se era uma desculpa pelo fato de não haver vaga no cemitério, mas eles disseram que não, que a  ordem do tráfico tem que ser cumprida”, relatou. 

Sem opção, a fonte só liberou o corpo na manhã do dia seguinte. Como já haviam outros sepultamentos agendados para a manhã da terça, o enterro foi realizado no horário limite estabelecido pela facção. “Foi algo muito rápido. Não houve tempo para a gente se despedir direito do nosso ente querido, um homem muito amado por todos. O corpo chegou no cemitério às 11h e 11h30 o caixão já estava coberto de terra. Foi aí que o coveiro disse: ‘Andem logo, façam a despedida’. E foi tudo muito rápido, ninguém pôde ficar no cemitério. Isso é um desrespeito com a família e com a memória dos mortos”, declarou. 

Uma outra fonte revelou ainda mais um problema: os roubos no local. “O nosso menino era para ser enterrado na gaveta, mas não tinha. Isso porque o pessoal começava a fazer as gavetas e eles (traficantes) passaram a levar cimentos, pás, carrinhos-de-mão e ‘escarreraram’ até os coveiros. Teve funcionário que pediu pra sair porque não conseguiu ser transferido para outro local de trabalho. É por isso que lá o matagal tomou conta. Tem que ter coragem pra trabalhar lá. Uma situação terrível. Pra enterrar meu parente, eles abriram a cova na hora, no meio do mato”, declarou. 

Muros

O cemitério municipal de Periperi foi construído em terreno acidentado. Segundo moradores, uma parte do muro que fica na localidade do Alto do Cruzeiro está no chão e é por onde os traficantes têm acesso ao local. “Quando você entra na sua casa, logo fecha a porta pra evitar a entrada de estranhos, correto? A parte de cima do Cruzeiro tem cinco metros de muro caído. Entram pra poder exatamente tomar conta. O Alto do Cruzeiro fica acima do cemitério”, explica. 

Ainda de acordo com a fonte, os equipamentos usados na iluminação também não podiam funcionar. “Até outro dia, à noite lá era um breu. Os refletores não eram ligados porque eles mesmo não deixavam. Queriam tudo escuro pra traficar e circular sem serem notados pela comunidade e pela polícia”, contou. 

Quando a reportagem esteve no cemitério havia três funcionários, dos quais apenas um concordou em falar sobre o assunto, em anonimato. Indo de encontro à principal denúncia, ele disse que há enterros, mas dependem do sistema de regulação, responsável por disponibilizar as vagas. Porém, diante das pichações da facção nas paredes, ele não teve como negar a presença do tráfico ali.

“Isso está evidente (disse apontando para as inscrições). O problema aqui é tão sério que, eles (traficantes) estavam roubando o pessoal que faz a limpeza no cemitério, levando os objetos pessoais e o material de trabalho. Hoje, as pessoas que fazem a manutenção trabalham sob escolta de guardas municipais”, declarou.

Funerárias

A reportagem também conversou com alguns agentes funerários. “A gente sabe que o tráfico aqui é pesado mesmo. Já tivemos casos de ter que enterrar os corpos no cemitério de Plataforma ou de Paripe, porque em Periperi não enterrava pela tarde. Não perguntava o motivo, porque a família sempre está agoniada e não quer discutir, quer resolver logo a situação, mas a gente desconfiava disso, porque as conversas que circulam, dizem que os caras (traficantes) não deixam”, relatou ele, que trabalha numa funerária considerada a quarta maior da Bahia. 

Um outro agente, de uma funerária menor, disse que já tem um bom tempo que não vai ao cemitério de Periperi. “As pessoas daqui não gostam de falar sobre esse assunto. Elas têm muito medo, até porque tem ‘olheiros’ por todo o canto. Mas o negócio aqui está pesado. Já tem mais de um mês que não trago corpo pra ser velado à tarde”. 

Posicionamentos

Sobre a denúncia de que o tráfico determina os horários de sepultamento em Periperi, a Semop enviou nota dizendo o seguinte: “Em razão da pandemia, houve uma restrição para a realização dos sepultamentos apenas no turno da manhã. No entanto, a Semop esclarece que já foi normalizado o horário em todos os cemitérios municipais, que agora funcionam das 08h às 17h”. 

Mas no mesmo documento, a Semop informou que “o apoio da Guarda Civil Municipal durante a execução dos serviços de roçagem e capinação no cemitério é necessário a fim de salvaguardar a integridade física dos agentes de limpeza”. 

Em relação à presença da GCM, durante as ações de manutenção, o órgão disse que “foi solicitado para prestar apoio às atividades dos trabalhadores de limpeza, após um roubo às equipes, quando estes atuavam no cemitério, sendo mensalmente, durante a programação de limpeza, prestado apoio, com o objetivo de garantir a integridade dos trabalhadores, bem como a proteção dos equipamentos públicos”.

Já em relação à não realização de sepultamentos na parte da tarde, a GCM disse “desconhecer e não ter sido notificada”, e recomendou verificação junto à Semop.

 

Tags: BDMcemitériodrogasenterrosfacçãomanhãsPeriperisalvadortraficantestráfico
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